Era um dia comum na cidade, um pouco nublado e um pouco abafado, enquanto o sol espiava tímido entre as nuvens ocasionalmente. Eu não sei porque, mas minha atenção estava totalmente no movimento que as plantas do canteiro faziam quando os carros passavam apressados no asfalto. Às vezes o vento vinha do céu e não dos carros, e, numa dessas, quando o vento jogou o cabelo na minha cara e eu o tirei para que não atrapalhasse a minha visão, a pessoa na minha frente comentou que eu estava encantadora. Me lembro de ter ouvido isso não porque me parecia interessante, mas porque incomodou ter meu movimento tão mal interpretado. Ele falava alguma coisa de dados ou idiomas, talvez de países e viagens, possivelmente de família e ambições. Eu me lembro que em algum momento ele comentou do dia e do clima e eu suspirei “que chato”, ao que ele achou ideal replicar com “também acho, prefiro quando faz sol”, não lembrando ele que, na verdade, eu gosto de chuva. Quando eu me inclinei para alcançar o canudo do suco, percebi que não só ele estava na minha frente, como também atrapalhava especificamente o ponto onde eu poderia estar observando um galho que se inclinava para a via e tinha potencial de alcançar a lateral dos ônibus. Como se ouvisse meus pensamentos, ele se mexeu e se agachou, liberando a paisagem toda para a minha visão. Bem na hora, para meu deleite, passou o 177H-10 , que levou um leve cutucada do galho mais atrevido. Sorri, satisfeita. Me sobressaltei com os comentários alheios que, acredito, também interpretaram mal o meu sorriso. Juro que quase ouvi o que ele disse. Me forcei a encará-lo e prestar atenção. “Quer se casar comigo?” Ele repetiu.

– Prefiro não fazê-lo.

Levantei, paguei a conta e saí. Em frente, atravessando a rua, tinha um restaurante com uma vista melhor para o canteiro e uma sombra mais silenciosa.


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